O Compromisso do Maçom com a Sociedade


À Glória do Gr. Arq. do Univ.!


Amados Irmãos.
A questão do Compr. do Maç. com a Soc. nos coloca alguns pontos que devem ser analisados. Algumas reflexões das quais não podemos fugir. A primeira condição para que um ser possa assumir um ato comprometido está em ser capaz de agir e refletir. É preciso que seja capaz de, estando no mundo, saber-se nele. Saber que, se a forma pela qual está no mundo condiciona a sua consciência deste estar, é capaz, sem dúvida, de ter consciência desta consciência condicionada. Quer dizer, é capaz de intencionar sua consciência para a própria forma de estar sendo, que condiciona sua consciência de estar.
Se a possibilidade de reflexão sobre si, sobre seu estar no mundo, associada indissoluvelmente à sua ação sobre o mundo, não existe no ser, seu estar no mundo se reduz a um não poder transpor os limites que lhe são impostos pelo próprio mundo, do que resulta que este ser não é capaz de compromisso. É um ser imerso no mundo, no seu estar, adaptado a ele e sem ter dele consciência. Sua imersão na realidade, da qual não pode sair, nem “distanciar-se” para admirá-la e, assim, transformá-la, faz dele um ser “fora” do tempo ou “sob” o tempo ou, ainda, num tempo que não é seu. O tempo para tal ser “seria” um perpétuo presente, um eterno hoje. A-histórico, um ser como este não pode comprometer-se; em lugar de relacionar-se com o mundo, o ser imerso nele somente está em contato com ele. Seus contatos não chegam a transformar o mundo, pois deles não resultam produtos significativos, capazes de (inclusive, voltando-se sobre ele) marcá-los.
Somente um ser que é capaz de sair de seu contexto, de “distanciar-se” dele para ficar com ele; capaz de admirá-lo para, objetivando-o, transformá-lo e, transformando-o, saber-se transformado pela sua própria criação; um ser que é e está sendo no tempo que é o seu, um ser histórico, somente este é capaz, por tudo isto, de comprometer-se.
Além disso, somente este ser é já em si um compromisso. Este ser é o homem.
Assim, como não há homem sem mundo, nem mundo sem homens, não pode haver reflexão e ação fora da relação homem-realidade. Esta relação homem-realidade, homem-mundo, ao contrário do contato animal com o mundo, implica a transformação do mundo cujo produto, por sua vez, condiciona ambas, ação e reflexão. É, portanto, através de sua experiência nestas relações que o homem desenvolve sua ação-reflexão, como também pode tê-las atrofiadas. Conforme se estabeleçam estas relações, o homem pode ou não ter condições objetivas para o pleno exercício da maneira humana de existir.
Os homens que a criam (realidade) são os mesmos que podem prosseguir transformando-a.
Impedidos de atuar, de refletir, os homens encontram-se profundamente feridos em si mesmos, como seres do compromisso. Compromisso com o mundo, que deve ser humanizado para a humanização dos homens, responsabilidade com estes, com a história. Este compromisso com a humanização do homem, implica uma responsabilidade histórica, não pode realizar-se através do palavrório, nem de nenhuma outra forma de fuga do mundo (ascetismo), da realidade concreta, onde se encontram os homens concretos. O compromisso próprio da existência humana, só existe no engajamento com a realidade, cujas “águas” os homens verdadeiramente comprometidos ficam “molhados”, ensopados. Somente assim o compromisso é verdadeiro. Ao experimentá-lo, num ato que necessariamente é corajoso, decidido e consciente, os homens já não se dizem neutros. A neutralidade frente ao mundo, frente ao histórico, frente aos valores, reflete apenas o medo que se tem de revelar o compromisso. Este medo quase sempre resulta de um “compromisso” contra os homens, contra sua humanização, por parte dos que se dizem neutros. Estão “comprometidos” consigo mesmos, com seus interesses ou com os interesses dos grupos aos quais pertencem. E como este não é um compromisso verdadeiro, assumem a neutralidade impossível.
O verdadeiro compromisso é a solidariedade, e não a solidariedade com os que negam o compromisso solidário, mas com aqueles que, na situação concreta, se encontram convertidos em “coisas”.
Comprometer-se com a desumanização é assumi-la e, inexoravelmente, desumanizar-se também.
            Esta é a razão pela qual o verdadeiro compromisso, que é sempre solidário, não pode reduzir-se jamais a gestos de falsa generosidade, nem tampouco ser um ativo unilateral, no qual quem se compromete é o sujeito ativo do trabalho comprometido e aquele com quem se compromete à incidência de seu compromisso. Isto seria anular a essência do compromisso, que, sendo encontro dinâmico de homens solidários, ao alcançar aqueles com os quais alguém se compromete, volta destes para ele, abraçando a todos num único gesto amoroso, afinal, Todos Somos UM!
            Pois bem, se nos interessa analisar o Compr. do Maç. com a Soc., teremos que reconhecer que ele, antes de ser Maç., é homem. Deve ser comprometido por si mesmo. Como homem, que não pode estar fora de um contexto histórico-social em cujas inter-relações constrói seu eu, é um ser autenticamente comprometido, falsamente “comprometido” ou impedido de se comprometer verdadeiramente. No caso do Maç., é necessário juntar ao compromisso genérico, sem dúvida concreto, que lhe é próprio como homem, o seu compromisso de Maç..
            Se de seu compromisso como homem, como já vimos, não pode fugir, fora deste compromisso verdadeiro com o mundo e com os homens, que é solidariedade com eles para a incessante procura da humanização, seu compromisso como Maç., além de tudo isto, é uma dívida que assumiu ao fazer-se Maç..
            Seu compromisso como Maç., sem dúvida, pode dicotomizar-se de seu compromisso original de homem. O compromisso, como um quefazer radical e totalizado, repele as racionalizações. Não posso nas 2ªs feiras assumir compromisso como homem, para nas 3ªs feiras assumi-lo como Maç.. Uma vez que “Maç.” é atributo de homem, não posso, quando exerço um quefazer atributivo, negar o sentido profundo do quefazer substantivo e original. Quanto mais me capacito como Maç., quanto mais sistematizo minhas experiências, quanto mais me utilizo do patrimônio cultural, que é patrimônio de todos e ao qual todos devem servir, mais aumenta minha responsabilidade com os homens.
            Não devo julgar-me, como Maç., “habitante” de um mundo estranho; mundo de técnicas e especialistas salvadores dos demais, donos da verdade, proprietários do saber, que devem ser doados aos “ignorantes e incapazes”. Habitantes de um gueto, de onde saio messianicamente para salvar os “perdidos”, que estão fora. Se procedo assim, não me comprometo verdadeiramente como Maç. nem como homem. Simplesmente me alieno.
            Na medida em que o compromisso não pode ser um ato passivo, mas práxis – ação e reflexão -, inserção nela, ele implica indubitavelmente um conhecimento da realidade. Se o compromisso só é válido quando está carregado de humanismo, este, por sua vez, só é conseqüente quando está fundado religiosa, filosófica e cientificamente. Envolta, portanto, no compromisso do Maç., seja ele quem for, está a exigência de seu constante aperfeiçoamento, isto é, desbastamento da pedra bruta que é, de superação do especialismo, que não é o mesmo que especialidade. O Maç. deve ir ampliando seus conhecimentos em torno do homem, de sua forma de estar no mundo, substituindo por uma visão crítica e criativa a visão ingênua da realidade, deformada pelos especialismos estreitos.
            Não é possível um compromisso verdadeiro com a realidade, e com os homens concretos que nela e com ela estão, se desta realidade e destes homens se tem consciência ingênua.
            Não é possível um compromisso autêntico se, àquele que se julga comprometido, a realidade se apresenta como algo dado, estático e imutável.
            Não é possível um compromisso autêntico se, àquele que se julga comprometido, olha e percebe a realidade enclausurada em departamentos estanques.
            Não é possível um compromisso autêntico se, àquele que se julga comprometido, não vê e não a capta como uma totalidade, cujas partes se encontram em permanente integração.
            Daí sua ação não poder incidir sobre as partes isoladas, pensando que assim transforma a realidade, mas sobre a totalidade. É transformando a totalidade que se transformam as partes e não o contrário. Por conseguinte, no primeiro caso, sua ação, que estaria baseada numa visão ingênua, meramente “focalista” da realidade, não poderia constituir o Compr. do Maç. com a Soc..
            Portanto, cabe-nos enquanto Maç. que somos, refletir acerca destas questões que o Educador e Filósofo Paulo Freire levanta em relação ao “Compromisso do Profissional com a Sociedade”, e que nós adaptamos como o Compr. do Maç. com a Soc., pois somos reconhecidos como os obreiros do Gr. Arq. do Univ., convocados para trabalharem na reconstrução da Obra Homem, da Obra Planeta e da Obra Universo.
            Estamos nos aproximando do final deste ano de 2006 da era vulgar, onde o mundo ocidental cristão estará comemorando no dia 25 de dezembro o nascimento de Jesus, o Cristo. Este que foi (dentre outros, Krhisna, Moisés, Braman, Zoroastro, Buda, Mahavira, João Batista, Maomé etc) a representação verdadeira de um Obreiro e Filho do Pai. Não devemos apenas comemorar seu nascimento, mas também meditar acerca do que representou a sua passagem aqui na terra durante 33 anos, há aproximadamente 2006 anos atrás.  
            Yesus, nos legou um grande e significativo exemplo, nos ensinou a amar a todos sem distinção de credo, raça, classe social etc. Dedicou sua vida exclusivamente para edificar o Grande Templo do Pai fundados no AMOR, HAMONIA, VERDADE E JUSTIÇA. Este Tempo, que não pode ser de forma alguma, construído materialmente, apenas pode ser simbolizado materialmente, o Grande Templo do Pai, é e está em tudo que existiu, existe e existirá, podendo ser encontrado no momento que o Homem buscar o verdadeiro caminho, ou seja, o caminho em direção a si mesmo, da sua mais intima intimidade. Como disse Yesus, “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, isto porque, ele e o Pai se tornara UNO, porque ele já reconhecia em si a Totalidade, não se encontrava mais fragmentado.
            Yesus, foi é e será, dentre outros, o nosso grande exemplo, e, portanto, neste período de espírito natalino, meditemos sobre Quem Somos, de Onde Viemos e para Onde Vamos, como dissera o mesmo a um Fariseu, “Eu posso dar testemunho de mim mesmo, pois Eu sei quem sou, de onde vim e para onde vou”. Ele foi e é um grande Maç.. Portanto, se julgamo-nos como tal, devemos refletir e agir como tal, não apenas em um dia, numa reunião, em um determinado lugar, com pessoas eleitas, mas sim em todos os lugares, na família, no trabalho, na rua, na escola, no carro etc, pois Deus é Pai que estás em toda a parte, pois em toda a parte se manifesta teu poder e tua misericórdia, e como dissera Moisés “Amai a Deus sob todas as coisas” e Eu vus digo, Amai todas as coisas como a Deus, pois Deus é e está em todas as coisas, seres, pensamento, sentimentos, atos, formas ...
            Coloquemos meus amados irmãos, nossas mãos, braços, pés, pernas, cabeça, enfim, todo o nosso corpo, alma e mente à OBRA, afinal, Bem-aventurados aqueles que como Obr. do Gr. Arq. do Univ. se comprometeram com a transformação dinâmica e consciente de si mesmos, de seus semelhantes, do planeta, bem como deste Universo, porque o Pai lhes recompensará com Vida Justa, Perfeita e Imutável.
Assim Seja.

Luís Eduardo Andrade da Silva.
Ap. M. da Loj. União e Trabalho nº 22

Salvador/Ba, 08 de maio de 2007.


[1] Texto adaptado do texto do educador e filósofo Paulo Freire intitulado O Compromisso do Profissional com a Sociedade do seu livro Educação e Mudança. Substituímos o termo Profissional por Maçom em alguns trechos do texto que selecionamos para compor este. Incluímos palavras e grifamos algumas palavras e frases que consideramos de extrema relevância dentro do texto.
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